3 de jun de 2017

Planalto manipulou agendas de Temer após delação de Joesley Batista

Análise dos códigos-fonte aponta que sistema foi acessado para alterar informações no mesmo dia da operação da Polícia Federal. Planalto diz que apenas realizou “transferências de bancos de dados”

Da Época 

Joesley Batista e Michel Temer (Foto: João Quesada)
Em 18 de agosto de 2014, o lobista do grupo J&F, Ricardo Saud, viajou para Brasília para comunicar pessoalmente ao então vice-presidente, Michel Temer (PMDB), que obteve o aval para o repasse de R$ 15 milhões ao PMDB na campanha eleitoral, fruto de um acerto espúrio para compra do apoio a Dilma Rousseff. O relato está na delação premiada do executivo, que veio a público há duas semanas. A agenda eletrônica da Vice-Presidência da República registra apenas uma informação para aquele dia: “Sem compromisso oficial”. Um novo detalhe revelado por ÉPOCA, porém, coloca sob suspeita esses dados oficiais e aponta até mesmo um indicativo de obstrução da Justiça. Os servidores de informática do Palácio do Planalto registraram dezenas de modificações nas agendas antigas de Temer realizadas entre 11h20 e 11h31 de 18 de maio, dia em que estourou a Operação Patmos, baseada na delação da JBS e que trouxe a público graves acusações envolvendo até mesmo o presidente da República.
ÉPOCA submeteu os códigos-fonte (espécie de alfabeto das máquinas, com números, letras e símbolos usados para fazer funcionar os programas de computadores) das páginas na internet que registram as agendas antigas de Temer a dois peritos da Polícia Federal especialistas em informática, que, separadamente, chegaram à mesma conclusão: o servidor do Planalto foi acessado e as agendas antigas manipuladas naquela mesma manhã em que a PF cumpria mandados de prisão e buscas autorizados pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre os dias nos quais constam alterações no sistema está a exata data desse encontro revelado pelo lobista da JBS. No espelho das alterações realizadas na máquina central que gerencia o programa de agendas antigas de Temer, consta: “
Procurado, o Planalto apresentou uma justificativa para o acesso realizado. Em nota, reconheceu que acessou os servidores da Presidência para edição das agendas antigas de Michel Temer, mas disse que a motivação foi apenas burocrática. Nega ter modificado ou suprimido informações das agendas. “Não houve alterações feitas por funcionários do gabinete nas agendas do então vice-presidente, Michel Temer. O que houve foi apenas uma transferência dos calendários para bancos de dados para evitar problemas tecnológicos, realizada na verdade no dia 16 de maio. Essa mudança garantiu o acesso público aos dados sem problemas de confusão de informações por questões técnicas”, afirmou a assessoria do Planalto.
Mas ao analisar as mais de 100 páginas com os scripts e códigos computacionais das agendas, os peritos observaram que nem todas as agendas antigas foram modificadas no mesmo dia 18. Ou seja, um grupo expressivo fugiu do padrão: as agendas que foram manuseadas no último dia 18 de maio, no calor da operação da PF, que poderia, por exemplo ter registrado o encontro com o executivo da JBS. Na avaliação dos peritos consultados pela reportagem, como as modificações não ficaram registradas em todas as agendas, a indicação é que pode ter ocorrido uma busca por palavras-chave para a realização de alterações específicas. Consultados sobre a justificativa do Planalto, os peritos apontam que uma migração de dados deveria provocar alterações em todas as agendas, e não somente em algumas. 

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