29 de nov de 2016

CANA BRAVA: A história e o desprezo de uma das comunidades quilombolas mais importantes de nossa região

Povoado quilombola está situado no município de Santa Quitéria/MA
Localidade foi há 5 anos reconhecida pela fundação Palmares


Antenor Ferreira  
Colaboração de pesquisa:
Débora Pimentel, Hugo Oliveira e Zé Ricardo

Localizado a exatos 5 quilômetros da sede do município de Santa Quitéria/MA, o povoado Cana Brava é uma das mais ricas áreas cultural e histórica da região do Baixo Parnaíba. A comunidade foi reconhecida há 5 anos pela Fundação Cultural Palmares, como sendo quilombola. 


A certificação só foi possível graças ao trabalho do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos da Cidadania, a época coordenado pelo atual secretário de assistência social, José de Ribamar Oliveira, o Prof. Didi, com a parceira do Centro de Cultura Negra do Maranhão.

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Num trabalho que durou 4 dias, estive na companhia de moradores da localidade conhecendo de perto a riqueza histórica desse lugar, que, sofre seriamente com o descaso de governantes e da ameaça de extinção de sua própria história, dado o esquecimento até mesmo por quem fez parte desse passado ou carrega consigo lembranças e traços duma sanguinária história. 

Em destaque na montagem os moradores que estiveram conosco, nessa inesquecível missão 


SURGIMENTO  

Segundo pesquisas, o povoado teve início em meados de 1750, há quase 300 anos, com a chegada de seus primeiros habitantes, NEGROS, escravizados por Alexandre do Rêgo, primeiro autodenominado dono da terra, onde hoje localiza-se a Cana Brava, que recebeu esse nome por conta de uma cana diferente das até então conhecidas. Os escravos apelidaram-na de "cana brava", nome que acabou batizando a comunidade. 

Imagem ilustrativa 

Alexandre Rêgo era um homem branco, conhecido principalmente pela grande quantidade de escravos. Se apresentava como dono de terras abrangendo não apenas a Cana Brava, como também as adjacências: Titara, Barra da Cruz, Pedras, Refúgio, e construiu a sede de sua fazenda na localidade Cruz Velha, às margens do Rio Parnaíba. 


LIBERTAÇÃO DE ESCRAVOS

Durante a velhice de Alexandre Rêgo, surge um herói que libertou o povo escravizado. Raimundo Rodrigues da Silva, mais conhecido como Raimundo Velho ou o "primeiro pai", como até hoje é recordado, comprou as terras e libertou o povo da escravatura, deixando que os mesmos lá vivessem produzindo para o próprio sustento. 

Diferente de senhoris da época, ele não cobrava pela permanência das famílias, o que despertava muita admiração entre os moradores, ainda mais por na ocisão ter apenas 20 anos, estima-se. 


RETORNO DA ESCRAVIDÃO 

Para a tristeza dos que ali viviam, no ano de 1919 surgiu no povoado, rodeado de "capangas", o coronel Francisco Macatrão, que tomou as terras e voltou a escravizar o povo. A partir daí a prática de tomar terras tornou-se corriqueira, ao ponto que hoje vários alegam na justiça serem detentores das terras que compreendem a Cana Brava e adjacências. 


RELIGIÃO 

A localidade quilombola cultua duas religiões. Preserva as raízes africanas e adora a religião católica. 

No Pequizeiro, povoado adjacente, também compreendido pela área de quilombo, existe o terreiro de Santa Barbara de praticantes da umbanda. Lá e na própria Cana Brava, prevalece com traços mais fortes a religião católica, havendo inclusive um tradicional festejo, que teve início em meados de 1905, momento em que foi feito uma promessa à Santa Ana, para que ali não mais morresse nenhuma mulher durante parto e nem um homem fosse convocado a servir ao exército. 


Umbandistas se reúnem no terreiro de Santa Barbara, no piquizeiro 
Grupo de jovens católicos da comunidade 
Jovens que participam de dança afro 
Personagem importante na influência da religião católica na comunidade, a senhora
Maria do Socorro Oliveira, 76 anos, primeira catequista da Cana Brava 

A promessa foi feita por Raimundo Rodrigues da Silva, "o primeiro pai", que, mesmo após o "golpe" sofrido por Macatrão, conseguiu com que os negros deixassem de ser escravos, passando a ser remunerados por suas atividades. Claro que a exploração era evidente e que os salários se resumiam a praticamente zero. 

Raimundo Rodrigues disse em sua promessa que enquanto houvesse ali descendentes seus, a festa religiosa continuaria, como ainda hoje prossegue. 

Após sua morte, o Coronel Macatrão voltou a escravizar o povo, deixando um rastro de perseguição, dor e preconceito. 


PRECONCEITO ANTES E DEPOIS DA MORTE

Um fator curioso do último escravizador da área quilombola da Cana Brava, o Coronel Francisco Macatrão, é que o mesmo não permitia o enterro de negros, no mesmo chão onde enterravam os brancos. 

Em nossas buscas encontramos um antigo cemitério com traços de sepulturas de escravos. Com o tempo e após sua morte, os moradores passaram a usar o "cemitério dos negros" de forma que suas sepulturas foram aos poucos sendo esquecidas e ocultadas. 

Antigo cemitério dos negros reúne sepulturas de escravos e antigos membros da comunidade 


ENTERRO DE CÃES

Na linha contrária do repúdio aos restos mortais de escravos, o Coronel sepultava como seres humanos, os cães de sua propriedade. Na própria Cana Brava ainda há um túmulo, dos vários cães do carrasco, que ali foram sepultados. 

Num mesmo cemitério, túmulos de humanos e cães 


FUGA DA ESCRAVIDÃO 

Na localidade Brejinho, já no vizinho município de Milagres, encontramos um muro de pedras, construído por escravos que em fuga fizeram ali uma espécie de quilombo, ou trincheira, na tentativa de evitar a escravidão. As paredes de pedra tem cerca de 4 Km de extensão. 

Paredes de pedra, montadas por negros que fugiam da escravidão 


Relatos dão conta que muitos morreram, por escassez de alimento, doenças e em confronto com "capatazes" e "capangas" de posseiros, que se auto-denominavam dono dos territórios e escravizavam os que neles habitavam.


PERSONAGENS E FOLCLORE 

Alguns ícones e personagens dessa incrível história, permanecem vivos na localidade Cana Brava. 

Mais idosa - Uma das mais excêntricas e adorável personagem é a idosa Maria Joana da Conceição, que tem incríveis 103 anos. Apesar de surda, dona Joana se mantém lucida e chega em alguns momentos a revelar o sofrimento que viu e sentiu em sua infância e adolescência, quando ainda existia a prática da escravidão. 

Aos 103 anos, dona Maria Joana foi testemunha ocular
da escravidão enfrentada por moradores da Cana Brava 

Parteira - Sua neta, Maria José da Conceição. Além de fazer parte do terreiro de Santa Barbara (umbanda), é uma das mais antigas e conhecidas parteira da localidade, chegando a ter realizado dezenas deles, numa época em que médicos era uma raridade por essas bandas. 

Dona Joana e a neta parteira, Maria José da Conceição 


Benzedor - Renato Soares, 43 anos, é o "benzedor", personagem que faz parte da vida de muitas famílias, inclusive nas próprias cidades. 

Com um dom do qual ele acredita ter recebido de Deus, Renato é conhecido por curar males desconhecidos por médicos, tanto em crianças como adultos. 

Renato Soares, o benzedor da localidade Cana Brava 

Perguntado sobre seu dom, ele faz mistério e destaca que é algo que está prestes ao fim, tendo em vista que até o momento, nenhum de seus filhos demonstrou interesse pela prática, repassada por seu avô. 


DIFICULDADES

Mas, a Cana Brava não se destaca apenas pelo passado de dor e sofrimento, bem como por suas figuras excêntricas e misteriosas. O povoado também convive com muitas dificuldades e anseia pelo devido reconhecimento de sua importância cultural e histórica. 

Ao visitarmos moradores nos deparamos com o relato de ameaças de despejo de suas terras e ainda de exploração de recursos de subsistência ou pagamento da "renda", como alguns preferem mencionar. 

Moradores relatam dificuldades na Cana Brava 

Além desses problemas, a localidade padece de ações nas áreas de saúde, educação, infraestrutura e abastecimento, que chega apenas a uma parte de sua área. 

Em reunião populares discutem problemas da comunidade 

Perguntados sobre o que mudou, desde o reconhecimento como território quilombola, moradores disseram que melhorou no sentido de "confiança", porém esperavam bem mais. 

O próprio presidente da Associação de Moradores de Cana Brava, Raimundo Augusto de Sousa, que orgulhoso exibe os certificados que tornaram válido o reconhecimento da terra, destacou que ainda há muito por fazer e lamentou o fato de muitos projetos buscados pela associação, não terem obtido resposta de órgãos como o INCRA, Caixa Econômica Federal e outros. 

Presidente da Associação de moradores da Cana Brava, Raimundo Augusto 


E é pensando justamente nisso que "Didi", com apoio da prefeita Nêda Augusta de Lima e da vice-prefeita eleita Ana Claudia Costa, está organizando um grandioso evento, que deverá ocorrer no próximo dia 20, na localidade. 

Secretário de Assistência Social, Dii, prestigiando apresentação no terreiro
de Santa Barbara 
Aninha está articulando a participação de autoridades e personalidades, como o presidente da Fundação Cultural Palmares, Pedro Celestino, de representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), entre outros. 

A ideia é fazer um levantamento de todas as deficiências da comunidade, bem como lutar pelos direitos assegurados em lei, garantindo a preservação e valorização desse tão importante povoado. 

Breve o Interligado estará publicando mais sobre o evento, que contará com a cobertura especial de nossa página .

Veja mais imagens da localidade e costumes: 

Grande maioria dos moradores levam um estilo simples de vida 

Capela católica na localidade piquizeiro, curiosamente em frente o terreiro
de Santa Barbara 

Comunidade padece de melhorias em sua infraestrutura 



Fabricação de farinha é uma das atividades econômicas e de subsistência marcante
no povoado 


Destroços de antiga casa que pertenceu a um dos vários escravocratas que se
apossaram do lugar 



Pesquisadora e moradora da área quilombola, Débora Pimentel 


Cultura, religião e mistérios, no terreiro de umbanda 

Mãe de Santo, do terreiro de Santa Barbara, dona Moça 


Artefatos da era da escravidão, ainda são encontrados 


Um comentário:

  1. Eu nasci nessa comunidade, e sinceramente nao imaginava que tivesse tido uma historia tao sofrida.apesar.de boa parte desse sofrimento ainda permanecer, vejo isso quando visito esse lugar quando visito meus pais. Mas apesar de tudo eu particularmente amo esse lugar. Quero parabenizar aos pesquisadores pelo execeçente trabalho.

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