22 de jun de 2015

ALERTA: Novo lança-perfume que virou moda entre jovens pelo Brasil, pode matar

Droga pode fazer mal e até matar. Amostras compradas em São Paulo foram testadas e diversas substâncias tóxicas foram encontradas.


Do G1

Uma droga antiga voltou reformulada com sabor doce e ainda mais perigosa. O Fantástico passou 4 meses investigando o novo lança-perfume que invadiu a periferia de São Paulo, e você vai saber por que essa droga pode ser mortal.
“Rola muito. Rola livre nos bailes”, diz o funkeiro MC Garden. “Você fica olhando para os lados, tudo lento... O coração acelera”, conta o estudante Igor Rodrigues. “É uma droga muito perigosa e muito subestimada”, afirma o psiquiatra Thiago Marques Fidalgo.
O velho lança-perfume ressurgiu na periferia de São Paulo. Com uma nova fórmula: “Sabores de coco, cereja, chiclete. Muitos sabores, vários”, diz Igor Rodrigues.
Fácil de comprar. Mas muito perigosa. Fatal!
“As amigas dela falaram que ela tava baforando um tal de lança. Ela foi e apertou minha mão. Aí foi o último gesto que ela fez”, relembra Maria de Lourdes da Conceição da Costa, mãe de uma vítima.
Lucas Rocha da Silva, 21 anos. É conhecido como Mc Garden. Está no centro de uma polêmica. "O funk de antigamente era um funk com conteúdo. Hoje em dia, a mensagem que o funk passa não agrega em nada a vida do jovem”, afirma.
De um lado, os MCs que criticam o novo lança, nos bailes e na internet. “Não acho certo a pessoa ficar influenciando menor a usar droga. ‘É o lança, é o lança’”, diz o DJ Puff.
Do outro, os músicos que elogiam a droga. “Realmente tá uma epidemia muito grande aqui”, diz o rapper MC Formiga.
“Eu não tô pegando a pessoa no braço para usar. Tô cantando a realidade do que tá acontecendo”, diz Mc Bin Laden.
Na noite de São Paulo, o lança está nas ruas. Só que quem 'curte' também está pondo a saúde em risco. Para mostrar quanto o lança-perfume pode fazer mal - e até matar – o Fantástico levou três amostras, compradas nas ruas de São Paulo, para serem testadas em um instituto de pesquisas.
Os resultados foram assustadores: nas fórmulas, duas substâncias de uso industrial. Em menor quantidade, um solvente chamado tricloroetileno - usado, entre outras coisas, para remover adesivos e tintas. Em maior concentração, o diclorometano - uma substância tão tóxica, que é uma das componentes do removedor de respingos de solda. Os dois compostos são quimicamente parecidos com o cloreto de etila, que era o princípio ativo dos lança-perfumes antigos, e é proibido no Brasil.
“A gente tá no grande grupo dos solventes. Vários compostos químicos que podem causar efeitos muito semelhantes”, diz o psiquiatra Thiago Marques Fidalgo.
Das substâncias encontradas no novo lança, o tricloroetileno tem venda liberada. O diclorometano é controlado, mas o anti-respingo de solda, onde ele é encontrado, é vendido livremente. Por não serem substâncias proibidas, quem vende acha que está escapando da lei.
“Não é a mesma coisa que portar cocaína, portar maconha, portar êxtase. Mas que são substâncias que sabidamente fazem mal à saúde e que por isso podem ser classificadas como algum crime contra a saúde pública”, afirma José Luiz da Costa, perito criminal e toxicologista.
“Uma quantidade muito pequena desses novos produtos, você tem um efeito que você precisava de uma quantidade enorme do lança-perfume de antigamente para ter”, conta o psiquiatra Thiago Marques.
Na gíria, o lança é 'baforado' - ou seja, aspirado -- pela boca. Vai direto para os pulmões. De lá, entra rapidamente na corrente sanguínea. E, em segundos, chega ao cérebro.
“A gente tem duas fases do efeito. O efeito inicial, de euforia, de excitação, de aumento da atividade cerebral. E uma fase de depressão, que você vai diminuir a atividade cerebral. Você tem diminuição da frequência cardíaca, da frequência respiratória, dificuldade de coordenação dos movimentos, da fala”, explica o psiquiatra.
Os jovens mostrados no vídeo acima conhecem esse efeito de perto. “As pessoas ficam lentas, tudo girando. Não presta atenção nas coisas”, conta a estudante Rafaela Walker.
Igor perdeu uma amiga. “Ela começou a baforar, baforar, baforar, até ela ter a parada cardíaca. Aí ela caiu no baile e levaram ela para o hospital, só que ela não resistiu”, relembra Igor.
Rafaela viu um amigo morrer de overdose. “Ali na hora mesmo ele morreu, ali na frente nossa”, conta a jovem.
Evandro Farias, de 21 anos, quase morreu. “Eu comecei a passar muito mal. Dores no peito, sentindo o corpo trêmulo e sentindo formigamento, tontura. Fiz exame do coração, o eletrocardiograma deu tudo alterado. Eu achei que era legal no começo, tipo a brisa era da hora, mas eu fui ver que não era nada disso”, conta o estudante Evandro.
O filho de 19 anos da Dona Francisca e a filha de 16 de Dona Maria de Lourdes não tiveram a mesma sorte.
“Ele estava desacordado. O coração dele tava batendo, bem lento. Logo depois a médica veio falar comigo. Ela me falou que ele teve... Que ela reanimou ele, a primeira vez ele voltou. E depois ele deu outra parada cardíaca. E eles reanimaram. Deu a terceira, eles reanimaram. Deu a quarta. Quando foi na quinta, ele não voltou mais”, relembra Francisca Moraes de Melo, mãe de vítima.
“Chegou lá, estava na emergência, tentando reanimar ela de novo. Ficou entubada... morreu. Sem falar nada, sem dizer nada, sem reação nenhuma”, lamenta Maria de Lourdes Conceição da Costa, mãe de vítima.
“Quem reanimou ele, ouviu ele falar, ele falou assim: 'tia, não me deixa morrer'. Ele sabia que ele estava morrendo”, conta Francisca.
Para tentar conter o novo lança, uma associação de jovens da periferia de São Paulo organizou uma campanha.
“Estamos trabalhando em redes sociais, nos rolêzinhos, levando para as comunidades”, diz Darlan Mendes, da Associação “Rolezinho, a Voz do Brasil”.
E ajudou a montar um projeto de lei para tentar conter o acesso aos componentes do novo lança - o texto está na Câmara dos Vereadores de São Paulo.

“Vetar a venda para menores desses componentes. E todos que são maiores de 18 anos, o que que vai acontecer? Ele vai comprar. Mas ali vai ser relatado, para quê que ele vai usar, nome, número e série”, explica Darlan.

“A gente fala muito mais sobre crack, a cocaína, maconha e o lança tem consequências muito mais nefastas no longo prazo”, explica o psiquiatra Thiago Marques Fidalgo.
“O lança sempre teve presente. Mas é que nesse momento tá rolando mais casos de morte, tá ficando um pouco mais sério a coisa”, diz MC Garden.

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